Tese Construindo a Base:
Elementos de discussão do Movimento Estudantil de Serviço Social
FORMAÇÃO PROFISSIONAL
O Serviço Social nasceu da necessidade do enfrentamento do conjunto das expressões das desigualdades da sociedade capitalista. Estas expressões caracterizadas como questão social (fome, moradia, desemprego, etc.), constituem o objeto de trabalho do Assistente Social.
A prática profissional em seu surgimento esteve por muito tempo ligada a Igreja Católica, que trabalhava a questão social de forma assistencialista.
A partir da década de 60 a atuação profissional foi rompendo laços com a Igreja Católica e sendo repensada de forma mais técnica e cientifica.
Dentro do contexto histórico de uma sociedade em conflitos sociais, o Serviço Social bate de frente com uma diversidade de problemas e situações que necessitam de soluções para melhoria e crescimento do país, período de ditadura no Brasil (1964-1985) o que torna uma barreira maior para lutar e empregar políticas sociais. O Serviço Social é marcado com suas perspectivas e possibilidades de avanços na época da Ditadura Militar.
O Brasil passou por um regime militar que se caracterizou pela falta de democracia, suspensão dos direitos constitucionais, censura, concentração de renda, pensamentos capitalistas, perseguição política e repressão a todos que eram contra o regime militar. Para compreendermos é necessário enfatizar este contexto histórico, pois foi neste período da Ditadura Militar que nasceu a necessidade do Movimento de Reconceituação do Serviço Social. Precisamente ao ano de 1964, quando o Presidente João Goulart apresentou um projeto de reformas econômicas e sociais que almejava garantir melhores condições de vida nas diversas camadas populares e promover a emancipação econômica brasileira, sendo que esta estratégia não tinha o objetivo de quebrar a hierarquia de classes, mas todo este processo de reforma aborreceu os conservadores capitalistas, pois os mesmos tinham medo que a nação vivenciasse um regime socialista-comunista e assim providenciaram a derrubada de João Goulart por meio de um golpe militar. Assim, tendo início a um longo período da ditadura militar que é considerado um dos acontecimentos mais marcantes da história recente do Brasil, neste contexto muitas pessoas foram presas, torturadas e assassinadas, casas eram invadidas, entre muitas outras violações dos direitos humanos. É nestes momentos da história que Jóse Paulo Netto nos faz vivenciar o Serviço Social e sua construção profissional e de movimento social (Livro Ditadura e Serviço Social), neste período tão turbulento, ele cava e aprofunda-se dentro da ditadura o nascimento de uma nova visão e ideologia do Assistente Social na história do Brasil. É importante lembrar que neste mesmo período iniciou-se a articulação do Movimento de Reconceituação do Serviço Social na América Latina, exibindo fundamentalmente a longa insatisfação dos profissionais que se conscientizavam de suas limitações teóricos – instrumentais como político- ideológicas e instituiu-se uma perspectiva de mudança Social, devido à conscientização da exploração, opressão e dominação, tendo este histórico do regime militar pautando-se na Doutrina de Segurança Nacional e Desenvolvimento, no antimarxismo e no pensamento católico conservador.
“O Serviço Social latino–americano é sensibilizado pelos desafios da prática social. Sua resposta mais significativa se consubstancia na mais ampla revisão já ocorrida na trajetória dessa profissão, que tem aproximadamente seis décadas de existência. Essa resposta é o movimento de reconceituação. Esse perfilou-se, como um movimento de denúncia - de autocrítica e de questionamentos societários – que tinha como contra face um processo seletivo de busca da construção de um Serviço Social latino-americano, saturado de historicidade, que apostasse na criação de novas formas de sociabilidade a partir do próprio protagonismo dos sujeitos coletivos” (Iamamoto).
Após o Golpe Militar de 64, o espaço de atuação profissional dos assistentes sociais se limitam na execução das políticas sociais em expansão dos programas de Desenvolvimento da Comunidade (DC) e atuando na eliminação da resistência cultural que representasse obstáculos ao crescimento econômico e integração aos programas de desenvolvimento do Estado, também neste contexto, a política social torna-se uma estratégia para minimizar as conseqüências do capitalismo monopolista marcado pela super exploração da força do trabalho e pela grande concentração de renda.
“O Brasil desempenhou, ao lado da Argentina, Chile e Uruguai, um papel de destaque na articulação das inquietudes profissionais do continente. Sedia em Porto Alegre, em 1965, o I Seminário Regional Latino- Americano de Serviço Social tido, por muitos analistas, como o marco inicial do movimento de reconceituação no continente” (Iamamoto).
A circunstância da sociedade brasileira neste período de regime militar e apresentação da política social remetem o Serviço Social a assumir uma prática com tendências modernizadoras, visando ações profissionais modernas e assim com essa mudança na postura da prática do Serviço Social foi marcado o momento inicial do Movimento de Reconceituação do Serviço Social no Brasil e posteriormente a Renovação do Serviço Social. Neste quesito os assistentes sociais começam a desenvolver um intenso processo de discussões interna na busca de um novo perfil profissional e de uma identidade com as classes trabalhadoras, já que a formação profissional do assistente social é pautada pela eficiência e modernização da profissão, considerando-se fundamental o planejamento, a coordenação, a administração, a capacitação profissional, para atuar de forma ampla e sendo isso conceitos fundamentais para a formação do assistente social a partir destas definições foram imprescindíveis as realizações dos Seminários que trataram da Teorização do Serviço Social: Araxá (19 a 26 /03/ 1967) - Teorização do Serviço Social, Teresópolis (10 a 17 /01/1970) - Metodologia do Serviço Social, Sumaré e Alto da Boa Vista (20 a 24/ 11/1978) - Cientificidade do Serviço Social. Os documentos utilizados nestas discussões são considerados marco histórico do Serviço Social. A partir de 1970 assenta a perspectiva marxista no contexto do Serviço Social brasileiro, “O que importa ressaltar – para os fins da presente análise – é que se a descoberta do marxismo pelo Serviço Social latino –americano contribui decisivamente para um processo de ruptura teórica e prática com a tradição profissional, as formas pelas quais se deu aquela aproximação do Serviço Social com o amplo e heterogêneo universo marxista foram também responsáveis por inúmeros equívocos e impasses de ordem teórica, política e profissional cujas refrações até hoje se fazem presente” (Iamamoto).
Houve uma conscientização da categoria pela necessidade de construção e alternativas profissionais e uma transformação da sociedade brasileira, diante das crises existentes, à assistência social passou a ser empregada de forma a administrar a miséria social, evitando o aprofundamento da questão social, estendendo assim as bases do governo podendo ter um domínio no setor popular mais marginalizado, com isso pretendia-se acabar e imobilizar a organização e resistência desses grupos enquanto classe e foi com essa ideologia que os profissionais romperam e assim deixaram de serem meros executores. [...] o eixo de debate brasileiro, até meados dos anos 70, diferencia-se radicalmente das temáticas polarizadoras da reconceituação na maioria dos países latino-americanos. Dessa forma, o enfretamento como herança da reconceituação vai dar-se tardiamente no Brasil, no bojo da crise da ditadura, quando o próprio revigoramento da sociedade civil faz com que se rompam as amarras do silencio e do alheamento político forçado a qual foi submetida à maioria da população no cenário ditatorial. (Iamamoto).
Conclui-se que no período de Ditadura Militar surgiu a necessidade de Reconceituação do Serviço Social que se constituiu em um esforço para desenvolvimento da proposta de ação profissional condizente com as especificidades do contexto latino-americano, ao mesmo tempo em que se configurou com um processo amplo de questionamento e reflexões críticas da profissão. Foi motivado pelas pressões sociais e mobilizações dos setores populares, historicamente marcada pela intransigência das desigualdades de classes e das questões sociais, em face do acúmulo do capitalismo, tal movimento também é marcado pela perspectiva de ruptura com o denominado Serviço Social tradicional. Questiona e cria laços com as classes populares num desejo de transformação social.
O Serviço Social, ao longo do seu processo de evolução histórica, rompeu as barreiras do positivismo, abriu-se a Fenomenologia alcançando Práxis Marxista. Assim, nós futuros Assistentes Sociais devemos romper as barreiras da acomodação inerente a questão social, pensar a fim de enxergamos para cada oportunidade a melhor possibilidade de intervenção prática e eficaz para a construção do tecido social, seja como trabalhador, seja como militante.
Pensar na formação no âmbito prospectivo do Serviço Social, nos remete a um exercício intelectual onde é marcado por transformações que atingem de forma direta os espaços profissionais, bem como, de suas funcionalidades.
A questão que se apresenta traz um trato significativo na contextualização da política nacional de educação, bem como, as novas configurações sociais que surgem nas áreas do conhecimento.
Estas transformações perpassam pelo perfil sócio econômico do estudante, onde à exigência de maiores qualificações tanto intelectual é derivada do próprio processo de consolidação acadêmica do Serviço Social.
Neste viés, o espaço da instituição deve atuar de forma que direcione a massa de alunados ao campo de ensino-pesquisa-extensão, objetivando um ensino de qualidade, comprometimento ético de natureza e/ou contestadora, no qual o estudante adquira amadurecimento teórico e prático, desenvolvendo uma intelectualidade vinculada a produção do conhecimento, pesquisa, direcionando-o a um posicionamento estratégico cabendo a ele formular ações que trabalhem na perspectiva do valor central atribuído a liberdade fundada na ontologia do ser social tendo como pano de fundo os princípios fundamentais que regem a democracia, o pluralismo, ou seja, a formação profissional está imbricada ao projeto profissional, na perspectiva de processualizar uma construção de nível transformador, inovador, estratégico, criativo, de forma que efetive os projetos consolidando e aprofundando os eixos analíticos da profissão, bem como, a formação teórico, prático, político e em sentido largo e cultural, que é constitutivo de cada área.
COLETIVO DE ESTUDANTES DA REGIÃO VII.
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